sábado, 23 de fevereiro de 2013

Os bolsos do morto

Os bolsos do morto
 Luis Fernando Verissimo

O morto não é exatamente um amigo. Mais um conhecido, mas daqueles que você não pode deixar de ir ao velório. E lá está ele, estendido dentro do caixão forrado de cetim, de terno azul-marinho e gravata grená, esperando para ser enterrado.
            Se fosse um amigo você ficaria em silêncio, compungido, lembrando o morto em vida e lamentando sua perda. Como é apenas um conhecido, você comenta com o homem ao seu lado – que também não parece ser íntimo do morto:
          – Poderiam ter escolhido outra gravata...
          – É. Essa está brava.
          – Já pensou ele chegando lá com essa gravata?
          – “Lá” onde?
          – Não sei. Onde a gente vai depois de morto. Onde vai a nossa alma.
          – Eu acho que a alma não vai de gravata.
          – Será que não? E de fatiota?
          – Também não. – Bom. Pelo menos esse vexame ele não vai passar.
          – Você é da família? – Não. Apenas um conhecido.
          Você examina o morto. Engraçado: ele vai partir para a viagem mais importante, e mais distante, da sua vida, mas não precisa carregar nada. Identidade, passaporte, nada. Nem dinheiro, o que dirá cheques de viagem ou cartões de crédito. Nem carteira!
         Você diz para o outro:
         – A coisa mais triste de um defunto são os bolsos.
        O outro estranha. – Como assim?
       – Os bolsos existem para ele carregar coisas. Coisas importantes, que definem a sua vida. CPF, licença para dirigir, bloco de notas, caneta, talão de cheques, remédio pra pressão...
       – Pepsamar.
       – Pepsamar, cartão perfurado da sena, recortes de artigos sobre a situação econômica, fio dental... Isso sem falar em coisas com importância apenas sentimental. Por exemplo: um desenho rabiscado por uma possível neta que parece, vagamente, um gato, e que ele achou genial e guardou. Entende?
       – Sei...
       – E aí está ele. Com os bolsos vazios. Despido da vida e de tudo que levava nos seus bolsos, e que o definia. O homem é o homem e o que ele leva nos bolsos. Poderiam ter deixado, sei lá, pelo menos um chaveiro.
      – Você acha?
      – Claro. As chaves da casa. As chaves do carro. Qualquer coisa pessoal, que pelo menos fizesse barulho num bolso da fatiota, pô!
       Você se dá conta de que está gritando. As pessoas se viram para reprová-lo. “Mais respeito”, dizem as caras viradas. Você faz um gesto, pedindo perdão. Sou apenas um conhecido, desculpem. Mas continua, falando mais baixo:
      – A morte é um assaltante. Nos mata e nos esvazia os bolsos.
     – Sem piedade. – Nenhuma.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Vamos passear no mundo de Fernando Sabino



ÚLTIMA CRÔNICA

                A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer um flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
                Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba se sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
                Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
                A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo  que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforo, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
                São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você...” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente  o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
                (Fernando Sabino)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

E vamos sonhar...





SONHOS...


    F

inalmente os computadores chegaram à escola. Os alunos olharam para eles com orgulho, curiosidade e respeito.
            Naquela noite, Marilena foi dormir feliz. Muito romântica, sonhava com um príncipe encantado e, para ela, o computador era como um super-héroi. Acreditava que ele transformaria sua vida.
“Mas como? Não entendo nada de computação...” – pensou, insegura. E, para espantar a preocupação, virou-se na cama.
            De repente, ouviu um ruído estranho. Olhou para o canto do quarto e... iluminado por uma luz azulada, lá estava ele: o computador. Intrigada, a menina levantou-se, aproximou-se, pé ante pé, e qual não foi seu espanto quando surgiu na tela um jovem simpático que foi se apresentando:
-          Oi, Marilena! Prazer, eu sou o S.O.
-          Oi! – respondeu ela, bastante surpresa. E pensou: “S.O.? Só espero que não seja Serapiano Osmundo...”
Como se tivesse adivinhado, o rapaz explicou:
-          S.O., de “Sistema Operacional”, viu? E foi você mesma que me escolheu...
Sorrindo ao perceber o olhar de espanto da garota, S.O. completou: - ... para coordenar os trabalhos aqui.
A menina sorriu encabulada e tentou fingir que sabia da existência de outros “sistemas operacionais” e da possibilidade de escolher entre eles. Depois, resolveu confessar:
-          É, é... que nunca tive um – gaguejou ela.
E comentou, preocupada:
-          Computador... parece só para homem...
Aí foi a vez de S.O. ficar admirado:
-          Para homem? Você nunca ouviu falar de Ada Lovelace? Em meados do século 19, Ada criou o primeiro programa de computador. Ela foi a primeira programadora do mundo!
-          Nessa época já existia computador? – perguntou a menina, surpresa.
-          Bem, computador, computador... – hesitou ele. – Os programas de Ada eram pra ser usados num avô dos micros... um precursor do computador, planejando por Charles Babbage, um matemático e cientista meio maluco.
E o rapaz acrescentou com um olhar sedutor:
-          Dizem que eles eram apaixonados.
Para Marilena, descortinaram-se novas perspectivas.
E ela sorriu.

Conto de Edith Modesto

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

As diferenças sociolinguísticas...


As diferenças sociolinguísticas
Andréa Gláucia de Souza



Os brasileiros ditos letrados são exatamente aqueles que têm um poder aquisitivo médio a alto e que desvalorizam qualquer que seja os pertencentes a classes sociais inferiores à sua. Isso mostra que o aspecto econômico ainda é preponderante, num país em que a riqueza de cultura é imensa, e que possui riquezas em detalhes, tanto de linguagem quanto de expressão. Muitas vezes são os iletrados que fazem a cultura crescer no Brasil, sem apoio financeiro ou educacional, deixando o país mais vivo.

O ensino de Língua Portuguesa tem sido muito discutido, não só no âmbito educacional, mas também na sociedade como um todo, porque é através dela que se consegue o domínio da leitura e escrita, possibilitando um entendimento intelectual e de vida. Os(as) alunos(as) que estão saindo das escolas têm estas deficiências graves relacionados ao português, na maioria das vezes decoram regras sem contexto algum e quando precisam produzir textos ou mesmo ler não sabem como fazê-lo e, por conseguinte, tem-se uma sociedade iletrada.

Este ensino é visto de forma complicada tanto pelos alunos(as) quanto pelos professores que de certa forma dificultam o aprendizado destes alunos(as). O fracasso escolar está relacionado com o processo de aprendizagem, pois o(a) aluno(a) bem alfabetizado chegará com melhor desempenho nas séries seguintes, ou seja, o(a) aluno(a) letrado tem maiores possibilidades de sucesso em outras disciplinas, irá ler bem e entender o que foi lido, deixando a sociedade mais “descomplicada” em relação à língua que utiliza e com maior senso crítico do que está sendo dito no mundo. 

A dificuldade de escrever o que está pensando ou falando é justamente de adequar a oralidade à norma culta, que é vista nas escolas separadamente sem contextualizá-las, ditando e fazendo com que o(a) aluno(a) decore regras gramaticais sem critério algum. Sem considerar que o(a) aluno(a) tem o seu repertório lingüístico próprio do meio em que vive, seus conhecimentos prévios que poderiam ser usados para o entendimento e aprendizado dele. Por isso, a sociolingüística vem para descomplicar o ensino de Língua Portuguesa.

Adentrar no mundo do(a) aluno(a) com uma linguagem mais simples é tentar ficar mais perto dele possibilitando um melhor aproveitamento do conteúdo, um relacionamento mais próximo e harmônico. Isso não quer dizer que esse professor(a) vai deixar de ensinar que a escrita é diferente da oralidade e que é preciso aprender regras para conseguir escrever bem, mas também não vai desvalorizar a linguagem e os dizeres do cotidiano do seu aluno.



As ações



...“Encontramos ações educativas que representam um progresso na forma de introduzir os brasileiros à cultura letrada, respeitando-lhe os antecedentes sociolinguísticos e culturais.” (BORTONI-RICARDO).

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