domingo, 3 de setembro de 2017

O direito ao respeito é para toda a população, inclusive o direito às crenças.

O dilema é fato nas escolas, mas se considerarmos o direito ao respeito pelo o próximo será com certeza uma situação amenizada, porém a sociedade ainda está longe disso, pois todas as religiões que ser a pregadora da verdade como os seus discípulos  e quem não estiver nesse grupo não é bem quisto. O debate é conflituoso, mas necessário.

STF avalia oferta de ensino religioso nas escolas públicas
O ensino religioso não seria a melhor resposta para assegurar direitos civilizatórios sendo, muitas vezes, motivo de questões conflituosas
ANA LUIZA BASILIO

            O ensino religioso nas escolas públicas deve ser objeto de votação do Supremo Tribunal Federal nesta quarta 30, em ação que conta com a relatoria do ministro Roberto Barroso. Estará em pauta a legalidade da oferta do ensino religioso pelas escolas da rede pública, questionada pela publicação da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4439, proposta pela Procuradoria-Geral da República em 2010.
Previsto na Constituição Federal de 1988, o tema do ensino religioso ganhou novos contornos com o decreto nº 7107, de fevereiro de 2010, firmado entre o governo brasileiro e a Santa Sé. O decreto alterou o previsto no parágrafo 1 do artigo 2010 da Constituição, que previa o ensino religioso, de matrícula facultativa, como disciplina das escolas públicas de ensino fundamental, com a seguinte redação:
1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação.
A dimensão da confessionalidade atribuída ao ensino religioso foi “o gatilho disparador da ADI”, como coloca a autora e então procuradora-geral, Déborah Duprat. O texto defende que “a única forma de compatibilizar o caráter laico do Estado Brasileiro com o ensino religioso nas escolas públicas é através da adoção do modelo não confessional, em que o conteúdo programático da disciplina consiste na exposição das doutrinas, das práticas, da história e de dimensões sociais das diferentes religiões – bem como de posições não-religiosas, como o ateísmo e o agnosticismo, sem qualquer tomada de partido por parte dos educadores”.
Também está colocada na peça a necessidade da disciplina ser ministrada por professores da carreira, descartando a presença de docentes alinhados a determinadas confissões religiosas, como explica Déborah.
“Queremos assegurar uma não doutrinação. O ensino religioso teria que abordar então todas as matrizes religiosas, especialmente as de cunho minoritário, como as de matriz africana e também as não religiões”.
Outros desdobramentos
O movimento pela educação laica também vem sendo acompanhado de perto pelo grupo Educação e Laicidade, que reúne diversas organizações da sociedade civil. O coletivo chegou a lançar um manifesto em defesa da aplicação integral de limites constitucionais ao ensino religioso nas escolas públicas brasileiras.
Os signatários da proposta reconhecem a importância da ADI, mas a ampliam com recomendações ao STF a serem levadas em conta no momento da votação da peça.
A coordenadora da Ação Educativa e integrante do coletivo, Denise Carreira, comenta as três principais indicações do grupo. Uma delas, como explica, coloca limites negativos à presença da religião na escola pública, ou seja, delimita o que não pode ser permitido.
“Por exemplo, a matrícula obrigatória no ensino religioso, várias redes trabalham com esse mecanismo, ferindo o princípio da facultatividade; também questionamos a questão da transversalidade adotada por algumas escolas, que faz com que o conteúdo religioso seja diluído em todas as disciplinas; e a presença deste ensino na grade curricular, o que acaba por pressionar os estudantes a cursá-lo”.
O coletivo ainda propõe que o STF faça uma interpretação contemporânea da inserção do ensino religioso na Constituição, que teria acontecido na época “por lobby religioso”. “O termo foi para a Constituição como forma de garantir a preservação de valores civilizatórios. Hoje, no entanto, o Brasil é capaz de apresentar outras soluções laicas a esta intenção, no bojo das Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos, aprovadas em 2012, e de outras legislações que se ancoram no mesmo arcabouço legal”, avalia Denise.
O grupo defende que o ensino religioso não é uma resposta adequada ao exercício da intolerância e do ódio e que, muitas vezes, acaba por acirrar questões conflituosas.
Outra incidência se dá em relação ao não financiamento público do ensino religioso, vetando qualquer possibilidade de direcionar orçamento público para professores, materiais didáticos e recursos de vertentes religiosas.
“Sobretudo em um momento de esvaziamento do Plano Nacional de Educação, é um absurdo jogar dinheiro no ensino religioso. Queremos que o STF reafirme a urgência da implementação do PNE enquanto instrumento de promoção de uma educação de qualidade, comprometido com a justiça social, em detrimento aos interesses de muitas igrejas”, reforça a especialista.
Uma agenda em disputa
Para a presidenta da Católicas pelo Direito de Decidir, Maria José Rosado, é clara a disputa entre os defensores da democracia e do respeito ao princípio da laicidade do Estado, e grupos religiosos, confessionais e cristãos que atuam como atores políticos na permanência do ensino religioso na Constituição e em seus desdobramentos.
Em sua análise, há brechas que dão margem à prática do ensino religioso descolada da ideia de estudo das religiões do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico. “O próprio nome ensino religioso reforça a dimensão do ensinar a partir de um caráter religioso”, coloca.
Ela também considera que o acordo com a Santa Sé criou uma hierarquização acerca do modelo confessional. “Deu margem para que qualquer ensino religioso tente inculcar nos alunos uma única religião como verdadeira, a defesa de uma verdade e, portanto, a exclusão de outras vertentes religiosas”.
Ao invés das escolas buscarem, em sua maioria, garantir a formação de estudantes críticos e autônomos, capazes de fazerem suas escolhas e tomarem suas decisões inclusive no campo da religiosidade, muitas praticam proselitismo, com prejuízos à pluralidade do campo.
Dados dos questionários da Prova Brasil 2015 enviados a diretores de escolas municipais, estaduais e federais evidenciam esta questão nas dinâmicas escolares. 1740 diretores afirmam que o ensino religioso na escola segue uma religião específica; quando questionados se a escola possuía uma atividade alternativa aos estudantes que não quisessem cursar o ensino religioso, 28.295 diretores assinalaram que não.
 No Estado do Rio de Janeiro o ensino confessional é garantido pela Lei nº 3459, de 14 de setembro de 2000, assinada pelo então governador Anthony Garotinho. A legislação ainda prevê que os professores da rede sejam credenciados pela autoridade religiosa competente.
Denise Carreira reforça que essas inclinações não devem se dar no âmbito público da educação, “isso sequestra as escolas para a lógica da disputa religiosa”. A seu ver, o ensino religioso deve ser reservado às famílias que professam religiões, ao espaço das próprias denominações religiosas e às escolas confessionais.
O professor da Universidade Federal do ABC, Salomão Ximenes, entende que a confusão normativa acerca do ensino religioso é intencional e “vem servindo de porta de entrada e justificação para as mais diferentes violações à liberdade de pensamento, crença e não crença nas escolas públicas”.
Por esta razão, entende que o momento é oportuno para cobrar autonomia e discernimento dos ministros do STF no sentido de assegurar que “o ensino religioso não sirva à pregação manifesta ou dissimulada de valores religiosos e de uma pretensa dimensão religiosa do sujeito; e que, no âmbito das escolas públicas, trate apenas dos conteúdos relacionados às liberdades religiosas e ao pluralismo da sociedade brasileira”.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Vamos ler...

A água x bebidas isotônicas
Entenda os conceitos de dissolução e solvatação e compare a água, o solvente universal, aos isotônicos
ELISABETE ROSA

                É comum nos depararmos com pessoas com garrafas de água em ambientes públicos, parques, nas ruas, mas é também muito comum verificarmos em supermercados uma variedade de bebidas isotônicas, que, muitas vezes, são indicadas, por meio de propaganda, para hidratação corpórea.
Esclareça a seus alunos sobre algumas das funções básicas da água: conhecida como solvente universal, a água é uma molécula capaz de dissolver inúmeras substâncias, porém nem todas. Demonstre a seus alunos a dissolução de uma pitada de sal de cozinha em um copo de água. Faça uma agitação do sal na água e demonstre como o sal no estado sólido deixa de ser visto.
O nosso organismo quando ingerimos algo salgado, pois precisamos de água para dissolver esse sal. Se a pessoa não ingerir água, o sal atrai a água dos nossos órgãos, deixando-os desidratados, assim como a nossa pele e até a cartilagem entre os ossos, provocando a falta de lubrificação e até mesmo a dor.
Por que sentimos sede? Com certeza vão conseguir explicar que é devido à necessidade do sal se dissolver no organismo. Se ele não encontrar água o suficiente, começa a retirar a água dos órgãos, da boca e aí vem a sensação de sede.
Além de dissolver nutrientes, sais minerais e outros compostos importantes, a água colabora no transporte dessas substâncias para todo o corpo garantindo as condições estáveis do meio interno, conhecida como homeostase.
Na homeostase térmica, a água faz o controle da temperatura corpórea mantendo-a estável. Na homeostase hídrica, a água ingerida mantém sua presença na composição interna e externa das células, no plasma, nas secreções, no líquido espinhal etc.
Mas qual é a composição da água? Ela é pura? Não, a água que ingerimos não é totalmente pura. Ela vem de rochas, de fontes naturais, de estação de tratamento de água e, portanto, possui muitas substâncias dissolvidas. Tais substâncias estão em baixa concentração, isto é, baixa quantidade em massa.
Peça a seus alunos para que leiam o rótulo de frascos de água mineral de marcas diferentes. Vão perceber que há água rica em cálcio, sódio e outras contendo magnésio, potássio, cloretos, carbonatos etc.
Compare o rótulo de um isotônico com um frasco de água de coco. Perceberão que algumas substâncias se repetem. Lembre-os de que o termo isotônico para bebidas significa uma solução que foi desenvolvida industrialmente para ficar parecida com a quantidade de sal que temos de ter no organismo.
Muitas indústrias tentam similaridade com o rótulo da água de coco, um produto natural também rico em compostos solúveis na água. Nos rótulos dos isotônicos vão perceber que a diferença entre os demais rótulos é também a presença do açúcar, utilizado na fórmula para repor energia.
Peça ainda que verifiquem as quantidades indicadas nos rótulos, que na água mineral as quantidades em massa são menores e a variedade é muito maior.
Agora, motive-os a pensar na fonte de sais minerais e outras substâncias químicas que ingerimos no café da manhã, no almoço, no lanche, nos sucos etc. ao longo de todo o dia. Pergunte: precisamos de mais sais minerais oriundos de bebidas isotônicas? Como o nosso corpo reage aos excessos de alguns sais?
Primeiramente, devemos pensar que os sais que naturalmente ingerimos precisam da água para dissolvê-los dentro do organismo. Imagine a sede após comer um bacalhau. Precisamos de muita água para a dissolução do sal contido no peixe.
Um sal de cloreto de sódio, por exemplo, quando em água, tem seus inúmeros íons de sódio e de cloreto separados. A separação ocorre devido às moléculas de água com seu lado negativo, lado do átomo O (oxigênio) atrair o lado positivo do cristal iônico, que é o sódio. Várias moléculas de água ficam ao redor de cada íon sódio, mantendo-o separado do cloreto.
Já o lado positivo da molécula da água, o lado dos hidrogênios, se aproxima do íon negativo, o cloreto, e várias moléculas de água ficam ao seu redor, impedindo-o de se aproximar do sódio. Os íons tentam se aproximar, mas a água não permite. Daí a dissolução do sal. Essas moléculas de água ao redor de cada íon formam as coroas de solvatação. Para cada íon são várias moléculas de água. Se ingerirmos muitas bebidas carregadas de sais somados aos sais provenientes da nossa alimentação, quem vai solvatar os íons? Precisaremos de mais água para que essa possa fazer a coroa de solvatação ao redor dos íons afinal, somente solvatados vão entrar na corrente sanguínea para serem distribuídos pelas células, portanto, a água dissolve os sais antes que estes retirem água do próprio corpo humano.
Naturalmente, por meio da alimentação, já temos os sais necessários para o organismo e, mesmo perdendo sais e água em atividades físicas através da pele, no suor, notamos que a própria água de torneira ou mineral, com a presença de muitas substâncias químicas, é capaz de repor as necessidades corpóreas.
Em caso de uma grave desidratação, perda de muita água e sais minerais, é necessária a orientação médica para saber qual a melhor maneira de repor e controlar a desidratação de forma rápida e eficaz.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Educar é apresentar a vida e não dizer como viver" Rosely Sayão

Rosely Sayão: “Educar é apresentar a vida e não dizer como viver”
A psicóloga, que acaba de lançar o livro 'Educação sem blá-blá-blá', fala sobre a importância das relações familiares e escolares para uma educação para o mundo
THAIS PAIVA
Educar não é fácil, muito menos nos tempos atuais. A sociedade tem passado por muitas transformações, e os pais se veem, tantas vezes, completamente perdidos. É o que evidencia a psicóloga Rosely Sayão em seu recém-lançado livro Educação sem blá-blá-blá (Ed. Três Estrelas, 2016).
Mas por que pais e professores estão tão perdidos? Para começar, diz a especialista, complicamos o que é muito simples e simplificamos o que tem grande complexidade. E, para completar, somos muito egoístas. “Não queremos elas [as crianças] sofram, como se fosse possível evitar que isso ocorra, não queremos sofrer com a dor delas, não queremos que elas vivenciem frustrações, não queremos que sejam excluídas de grupos sociais. Para nós, o que conta são esses nossos sentimentos, mesmo que, para elas, passar por todas essas experiências “negativas” seja algo muito benéfico”, explica na introdução da obra.
Em conversa com Carta Educação, Rosely falou sobre os principais temas abordados no livro como a relação entre família e escola, a dificuldade dos pais de dizer “não”, como apresentar a tecnologia às crianças, entre outros assuntos essenciais para um convívio familiar e escolar mais saudável.
Carta Educação: O mundo tem passado por muitas transformações em um espaço de tempo relativamente pequeno. A educação vem acompanhando essas mudanças? Quais são os ensinamentos de nossos avós, pais ainda pertinentes e quais aqueles que precisam ser revisados?
Rosely Sayão: Os ensinamentos que precisamos manter são aqueles gerais, relacionados aos princípios e valores. Independentemente das mudanças que ocorreram no mundo, do estilo de vida que as crianças e jovens levam hoje, é preciso ensiná-los a ser honesto, ético, justo, respeitar o outro. O que muda é a maneira de ensinar: acho que hoje a mediação funciona bem. Então usar um filme para discutir uma determinada situação ou uma notícia que está tendo repercussão nas mídias pode ser um ponto de partida para conversar sobre os temas. Antes os pais só mandavam, era “faça isso, não faça aquilo, isso pode, aquilo não”. Hoje, deve haver a conversa junto com a atitude. Não é só conversa também, são os dois juntos.
CE: No seu livro, a senhora fala em crise da autoridade dos pais e como isso tem dificultado a relação deles com os filhos. Poderia explicar melhor?
RS: A crise da autoridade começou faz tempo, mas estamos vendo os efeitos disso na educação só agora. E não é só a autoridade dos pais que está sendo contestada, é geral. Se analisarmos o nosso panorama político nas últimas décadas, percebemos que nem as autoridades políticas são respeitadas mais. Em relação aos pais, dizer não para o filho é apresentar a vida como ela é e essa é a dificuldade dos pais, pois eles querem criar um mundo perfeito para seus filhos, só que esse mundo não existe. Mas educar é isso: apresentar a vida e não dizer como viver.
CE: Por que é tão difícil dizer “não”?
RS: Muitos pais me perguntam isso, como dizer “não” ao filho, e eu viro e respondo: “Olha para ele e diz ‘não’”. A verdade é que os pais não querem bancar o que vem depois do não. A birra, o choro, a revolta. Mas tem de bancar, pois é função dos pais fazer com que a criança faça aquilo que é bom para ela. Porque isso ela não sabe, a criança só sabe o que ela gosta e não gosta.
CE: Muitos pais têm sobrecarregado seus filhos com atividades extraclasse na ânsia de moldá-los dentro do currículo perfeito desde muito cedo. Como a senhora enxerga essa tendência?
RS: O individualismo e a competição estão no seu auge em paralelo com o poder de consumo. Há uma geração educada dessa maneira e percebe-se que isso não está ajudando a melhorar o mundo, pelo contrário. Então está na hora de a gente repensar isso tudo. Se o mundo ensina a gente a ser competitivo, a gente tem que dar uma vacina para nosso filho, isto é, ensinar a ser cooperativo. O mundo ensina que é importante consumir, tenho que dar a vacina e mostrar que pode-se consumir de maneira crítica. Isso que é importante e não ensinar mais do mesmo. Se o mundo já ensina isso, a gente não precisa ensinar de novo.
CE: A senhora também defende que a relação entre família e escola deva ser, em certa medida, conflitante para que a criança tenha duas perspectivas de mundo. Como assim?
RS: Uma é a perspectiva de mundo segundo a família, que é uma perspectiva privada, recheada muitas vezes de preconceitos, pré-julgamentos, convicções. E a escola deveria oferecer para o alunado a visão de mundo na perspectiva do conhecimento. Assim, o aluno pode olhar para aquilo que ele aprendeu com os pais e pensar criticamente a respeito. Se não o mundo nunca muda, os filhos vão repetir os pais e pronto. Então quando eu vejo famílias procurando escolas que falam a mesma linguagem que eles, eu ficou um pouco assustada porque é colocar a criança sob a ditadura de um pensamento único.
CE: Falando nisso, qual sua opinião sobre o projeto Escola Sem Partido que quer tipificar e punir o assédio ideológico nas escolas?
RS: Tudo que acontece na escola é político, é que nós achamos que política é sempre partidária. Toda escola é obrigada a ter um projeto político-pedagógico, esse é o nome. O que significa esse político? O tipo de cidadão que nós queremos formar. A gente quer formar um cidadão consciente, crítico ou um cidadão que aceita tudo que dizem para ele? Eu li alguma coisa sobre o Escola Sem Partido e não entendi porque para mim pareceu que o projeto busca negar uma determinada ideologia, mas não outras. Não há neutralidade nem na ciência, ao ler um texto científico, eu interpreto segundo meu referencial ético, moral. Então não existe escola sem política. Sem partido, até pode ser, mas não é isso que esse movimento prega.
CE: A relação família-escola está fadada a ser tensa?
RS: Não necessariamente, está fadada a ser conflituosa. Em nosso País, temos uma imagem pejorativa dessa palavra. Mas o conflito é sempre muito positivo, porque permite que visões diferentes encontrem diálogo e possam assim modificar um ao outro. Para nós, hoje, resolver conflito significa confrontar. Conflito não é convencer o outro da minha visão, mas também entender a postura, visão do outro.
CE: Deve haver diferenças entre educar meninos e meninas?
RS: Tem diferença entre educar um filho e outro, entre educar Maria e Mariana. Cada filho é único e a gente vai aprendendo na trajetória a conhecê-lo, que ele não é do jeito que a gente queria que fosse, etc. Então educar meninos é diferente de educar meninas, sim, mas não no sentido dos preconceitos e dos estereótipos de gênero. Mais no sentido de que educar cada filho é diferente. Eu conheci uma mãe que me disse uma frase que me fez pensar muito. Ela disse assim: “A maior injustiça que eu posso cometer com meus filhos é tratá-los da mesma maneira”.
CE: Como a tecnologia deve ser inserida no cotidiano da criança? Quais são os limites?
RS: É bom lembrar que a televisão já foi usada como babá eletrônica. Os pais quando precisavam de um pouco de sossego ligavam a TV e as crianças ficavam lá encantadas. A grande vantagem do tablet é que agora dá para fazer isso fora de casa, de qualquer lugar. Eu vejo muito em restaurante, a família almoçando e a criança lá no tablet. Hoje, nós temos muitas pesquisas que são conflitantes entre si, estudo falando que é bom apresentar cedo, outro falando que prejudica.
Eu diria que o bom senso ajuda. Se você der um tablet ou um celular para uma criança com menos de 6 anos, ele vai ver aquilo como um brinquedo, mas é um brinquedo que não vai estimular a criatividade dela em nada. Usar um recurso tecnológico para a criança ficar quietinha não vale a pena. A partir dos 7 anos, acho que dá para usar muitos recursos interessantes, mas a gente não pode esquecer que a infância – que vai mais ou menos até os 12 anos – deve ser usada para a criança explorar o mundo em todas as suas possibilidades. Então se ela ficar o dia todo só empinando pipa não vai ser legal porque vai perder outras oportunidades. O mesmo vale para um recurso tecnológico.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

A polêmica da internação compulsória

A polêmica da internação compulsória

Medida sugerida como política pública para usuários de crack provoca discussões; defensores da proposta argumentam que “um em cada dois dependentes químicos apresenta transtorno mental”, aqueles que discordam citam abusos e ineficácia do procedimento

Luiz Loccoman

Drogas como o crack agem de maneira tão agressiva no corpo do usuário que não permitem que ele entenda a gravidade de sua situação e o quanto seu comportamento pode ser nocivo para ele mesmo e para os outros. Foi com base nessa ideia que o deputado federal Eduardo Da Fonte (PP-PE) apresentou em março deste ano uma proposta de política pública que prevê a internação compulsória temporária de dependentes químicos segundo indicação médica após o paciente passar por avaliação com profissionais da saúde. A internação contra a vontade do paciente está prevista no Código Civil desde 2001, pela Lei da Reforma Psiquiátrica 10.216, mas a novidade agora é que o procedimento seja adotado não caso a caso, mas como uma política de saúde pública – o que vem causando polêmica. Aqueles que se colocam a favor do projeto argumentam que um em cada dois dependentes químicos apresenta algum transtorno mental, sendo o mais comum a depressão. A base são estudos americanos como o do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, na sigla em inglês), de 2005. Mas vários médicos, psicólogos e instituições como os Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs), contrários à solução, contestam esses dados.
Os defensores da internação compulsória afirmam que o consumo de drogas aumentou no país inteiro e são poucos os resultados das ações de prevenção ao uso. A proposta tem o apoio do ministro da Saúde Alexandre Padilha, que acredita que profissionais da saúde poderão avaliar adultos e crianças dependentes químicos para colocá-los em unidades adequadas de tratamento, mesmo contra a vontade dessas pessoas. O ministro acrescenta que a medida já é praticada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O Conselho Federal de Medicina (CFM) também é a favor da medida. Durante a reunião de apresentação do relatório de políticas sociais para dependentes de drogas, o representante do CFM Emmanuel Fortes corroborou a proposta de internação compulsória nos casos em que há risco de morte, ressaltando que a medida já é praticada no país.
De fato, de acordo com Relatório da 4a Inspeção Nacional de Direitos Humanos (que pode ser consultado clicando aqui ), apesar de a lei no 10.216 prever a internação compulsória como medida a ser adotada por um juiz, o que se vê na prática com os usuários de álcool e outras drogas contraria a lei, pois introduz a aplicação de medida fora do processo judicial. Maus-tratos, violência física e humilhações são constantes nessas situações. Há registros de tortura física e psicológica e relatos de casos de internos enterrados até o pescoço, obrigados a beber água de vaso sanitário por haver desobedecido a uma norma ou, ainda, recebendo refeições preparadas com alimentos estragados.
DE TRÊS FORMAS
Atualmente estão previstos três tipos de internação: voluntária, involuntária e compulsória. A primeira pode ocorrer quando o tratamento intensivo é imprescindível e, nesse caso, a pessoa aceita ser conduzida ao hospital geral por um período de curta duração. A decisão é tomada de acordo com a vontade do paciente. No caso da involuntária, ela é mais frequente em caso de surto ou agressividade exagerada, quando o paciente precisa ser contido, às vezes até com camisa de força. Nas duas situações é obrigatório o laudo médico corroborando a solicitação, que pode ser feita pela família ou por uma instituição. Há ainda a internação compulsória, que tem como diferencial a avaliação de um juiz, usada nos casos em que a pessoa esteja correndo risco de morte devido ao uso de drogas ou de transtornos mentais. Essa ação, usada como último  recurso, ocorre mesmo contra a vontade do paciente.
CASO A CASO
Para a secretária adjunta Paulina do Carmo Duarte, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), o discurso que circula sobre epidemia do crack não está de acordo com a realidade. “Há no imaginário popular a ideia equivocada de que o Brasil está tomado pelo crack, mas o que existe é o uso em pontos específicos que pode ser combatido com atendimento na rua, não com abordagem higienista, com o mero recolhimento de usuários.” Dados do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) revelam que 12% dos paulistanos são dependentes de álcool e apenas 0,05% usa crack. A psicóloga Marília Capponi, conselheira e representante do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), aponta que, apesar dos dados, o crack tem sido tratado como epidemia em todo o território nacional nos últimos anos, e com isso tem sido disseminada a necessidade de uma resposta emergencial para resolver a questão, o que referenda a internação compulsória. Marília, que também é cordenadora de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), argumenta, porém, que essa é uma propaganda falaciosa. Estudos desenvolvidos em centros de pesquisa de várias partes do mundo mostram que de todas as pessoas que se submetem a tratamento para se livrar das drogas, apenas 30% conseguem deixar a dependência; mas o acompanhamento dos casos mostra que é imprescindível o tratamento específico e muito esforço multiprofissional.
O sistema de conselhos de psicologia acredita que a medida fere os direitos humanos e tenta destruir o movimento da reforma psiquiátrica. Defende que não basta reconhecer a insuficiência da rede de saúde na administração das necessidades dos que dependem de drogas, mas estabelecer o compromisso de ampliá-la com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Os especialistas acreditam que a opção pela internação em instituição terapêutica deve ser considerada e respeitada, mas desde que seja avaliada caso a caso – e jamais adotada como uma política pública.
“Trabalhadores, gestores e usuários do SUS mobilizaram-se a favor da defesa dos direitos humanos e do tratamento em serviços abertos e articulados com a Rede Antimanicomial. Fica claro que as comunidades terapêuticas não são aceitas pelos que constroem o SUS. Elas se constituem em serviços que se organizam a partir de pressupostos morais e religiosos que ainda persistem devido à correlação de forças nas diferentes instâncias dos legislativos, executivos e judiciários do nosso país”, afirma Marília Capponi. Outro estudo, feito pelo psiquiatra e coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que apenas 2% dos pacientes internados contra a vontade têm sucesso no tratamento e 98% deles reincidem. “A porcentagem de fracassos é alta demais para que a medida seja adotada como política pública no enfrentamento do crack”, afirma Marília.
Enquanto se discute a questão, dois usuários de crack são internados involuntariamente todos os dias em São Paulo. Entre pessoas dependentes dessa e de outras drogas e a pacientes psiquiátricos, o número de encaminhados para instituições terapêuticas contra a própria vontade nos últimos oito anos passa dos 32 mil, segundo dados do Ministério Público. Marília garante que as experiências relatadas por quem já passou pela internação forçada são desumanas. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem proposto debates para discutir formas de enfrentamento do uso abusivo de álcool e drogas ilegais, argumentando que o problema tem raízes na desigualdade social e que apenas articulações em rede, da qual participem diversos setores e instituições sociais, podem ser eficazes para resolver a questão.
CONFLITOS E DESAFIOS
O movimento da reforma psiquiátrica é uma luta pelos direitos de pacientes psiquiátricos que denuncia a violência praticada nos manicômios e que propõe a construção de uma rede de serviços e estratégias comunitárias para o tratamento dessas pessoas. O movimento ganhou força na década de 70 no Brasil com a mobilização de profissionais da saúde mental e familiares de pacientes insatisfeitos com os métodos praticados na época. A nova política de saúde mental visa o tratamento em rede substitutiva, ou seja, em locais que o paciente possa frequentar, sem a necessidade de passar longos períodos internado, longe da convivência familiar e comunitária.
 O movimento de desconstrução do hospital psiquiátrico implica um processo político e social complexo, composto de diversos atores, instituições e forças de diferentes origens do qual o CRP participou efetivamente; por isso a instituição se posiciona contra as internações compulsórias e contra as comunidades terapêuticas, defendendo o tratamento em locais abertos ligados à rede antimanicomial. Para isso luta pela ampliação dos serviços oferecidos pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que é um trabalho em saúde mental aberto e comunitário do SUS e local de tratamento para pessoas que justifiquem sua permanência num dispositivo de atenção diária; nas unidades de acolhimento transitório, postos que funcionam como uma passagem breve para o dependente, que depois será encaminhado a serviços de reinserção social. Também são considerados necessários consultórios de rua que atendam à população em situação de risco e vulnerabilidade social, principalmente crianças e adolescentes usuários de álcool e outras drogas; bem como a oferta de leitos em hospital geral e equipes de saúde mental básica articuladas com as redes de urgência.

Uma contrapartida à internação compulsória é o reforço de políticas públicas de tratamento em rede substitutiva, em convivência familiar e comunitária aos usuários de entorpecentes. “A dependência química é um fenômeno que deve ser discutido da perspectiva biopsicossocial; o tráfico, o desemprego e a violência pedem intervenções mais amplas e recursos de outras áreas como educação, habitação, trabalho, lazer e justiça”, ressalta Marília.

domingo, 23 de abril de 2017

Os valores olímpicos que os Jogos carregam

Os valores olímpicos que os Jogos carregam
Olimpíada tem origem na Grécia Antiga, onde entendia-se que beleza e força eram exercitadas pela ginástica e pelas artes, desenvolvendo alma e corpo juntos
KATIA RUBIO
 

Sua origem se associa às competições atléticas na Grécia, que eram realizadas para celebrar diferentes deuses. Por isso, muito do que se sabe sobre a história desse período se confunde com a mitologia. Na Grécia Antiga, as práticas atléticas eram consideradas uma obrigação moral, e os gregos entendiam que a beleza e a força eram exercitadas pela ginástica e pelas artes, desenvolvendo o corpo e a alma, e nunca um sem o outro.
Os Jogos Pan-Helênicos dividiam-se em quatro grandes competições atléticas na Grécia: os Jogos Olímpicos homenageavam Zeus; os Jogos Píticos celebravam Apolo; os Jogos Ístmicos celebravam Poseidon; os Jogos Nemeus ocorriam em honra a Hércules. Os Jogos Heranos eram disputados exclusivamente por mulheres e homenageavam a deusa Hera, esposa de Zeus. Havia ainda as Panateneias, realizadas em honra à deusa Atena. Uma Olimpíada é o nome dado ao período de quatro anos que separa uma edição dos Jogos Olímpicos da outra.
O Movimento Olímpico contemporâneo foi criado por Pierre de Coubertin. Ele acreditava que o esporte era uma importante forma de educação para a juventude. Para ele, mais importante que a vitória nas competições era a participação na disputa. E assim nasceu o Olimpismo que se refere ao conjunto de valores pedagógicos e filosóficos do Movimento Olímpico, e não apenas os Jogos Olímpicos. Os Jogos Olímpicos da Era Moderna tiveram sua primeira edição em 1896. As modernas Olimpíadas, ou seja, o período em que ocorrem as edições dos Jogos Olímpicos, dividem-se em Jogos de Inverno e de Verão, ocorrem de quatro em quatro anos, como na Antiguidade, alternando-se a cada dois anos entre os Jogos de Verão e os de Inverno. Atualmente, a realização das competições é disputada por metrópoles de países dos cinco continentes, em um processo que demanda alguns anos. As regras do Movimento Olímpico estão contidas na chamada Carta Olímpica.
Ao longo do século XX os Jogos Olímpicos deixaram de acontecer em três ocasiões: os Jogos da VI Olimpíada, em 1916 por causa da Primeira Guerra Mundial e os Jogos da XI e da XII Olimpíadas, em 1940 e 1944 por causa da Segunda Guerra Mundial.
Entre os símbolos olímpicos destacam-se a bandeira com os anéis entrelaçados. Ele foi criado em 1913, e cada um dos anéis coloridos representa um continente: o azul refere-se à Europa, o amarelo à Ásia, o preto à África, o verde à Oceania e o vermelho à América. Essas cores estão presentes em quase todas as bandeiras dos países do mundo. Somente nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, o símbolo, em fundo branco, foi utilizado pela primeira vez na bandeira olímpica que abriu o desfile das delegações.
A chama olímpica é considerada um dos elementos centrais dos Jogos Olímpicos desde a Antiguidade, quando o fogo representava a luz e o poder dos deuses presente na celebração olímpica. Acesa em um ritual no Templo de Hera, em Olímpia, a chama é passada para uma tocha e, então, é conduzida por atletas e pessoas de diferentes países até chegar ao estádio onde serão realizados os Jogos Olímpicos, quando então é acesa a chama olímpica, que será apagada somente ao final da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos.
As oliveiras eram árvores símbolo da Grécia, grande produtora de azeitonas e de azeite, fundamentais para os gregos tanto na alimentação como enquanto combustível para iluminar as casas. A coroa com ramos de oliveira simbolizava o triunfo do vencedor nas provas dos Jogos Olímpicos. Os demais Jogos Públicos premiavam seus vencedores com objeto de valor local, como a cora com ramos de louros.
Os Jogos Olímpicos basearam-se em um conjunto de valores que são a referência fundamental do Movimento Olímpico até os dias atuais. Desde que Pierre de Coubertin deu início ao Movimento Olímpico no final do século XIX, ele não desejava apenas criar uma competição esportiva. Alguns princípios éticos, pedagógicos e morais norteavam essa prática, que hoje representam a face pública do Olimpismo. Assim, o respeito, a coragem, a determinação, a inspiração e a igualdade são valores olímpicos por excelência, que funcionam como um Código de Conduta do Movimento Olímpico e buscam nortear as ações de todos os envolvidos nas atividades olímpicas, sejam elas competitivas, administrativas ou voluntárias.



domingo, 16 de abril de 2017

Alunas criam app que ajuda pessoas com Alzheimer

Alunas criam app que ajuda pessoas com Alzheimer
A principal função do HelpAlz é reunir informações que possam orientar os familiares dos portadores da doença
THAIS PAIVA

Cerca de 1,2 milhão de brasileiros sofrem da doença de Alzheimer, segundo o Ministério da Saúde. Incurável, a enfermidade apresenta sintomas que se agravam ao longo do tempo, mas que podem ser controlados e retardados se a doença for diagnosticada precocemente.
Com o acesso à informação correta, a família pode desempenhar um papel decisivo para identificar a doença e, assim, melhorar a qualidade de vida do paciente.
Pensando nisso, quatro estudantes do Instituto Alpha Lumen (IAL), localizado em São José dos Campos (SP), desenvolveram um aplicativo que auxilia os familiares nos cuidados dos portadores da doença.
Batizada de HelpAlz, a ferramenta foi criada por Ana Paula Maciel (16), Débora Gabriel (14), Larissa da Fonseca (15) e Thaís Nakamura (13) e reúne informações para a realização de um diagnóstico precoce, diminuindo as chances de descobrir a doença em estágios mais avançados, além de indicar profissionais e locais para o tratamento.
“O app tem quatro funções principais. A primeira delas é uma lista contendo profissionais para o tratamento como médicos, farmacêuticos e cuidadores. A segunda função é um mapa mostrando a localização de clínicas, hospitais, casa do idoso e outros lugares importantes”, explica Débora.
A terceira, enumera a estudante, é um pré-diagnóstico simples para ver se os sintomas que o paciente apresenta são de Alzheimer mesmo e a quarta traz dicas gerais para os familiares como alimentos que podem ajudar a estagnar a doença, como dar banho, ajudar a comer, dicas para o condicionamento físico, além de exercícios cognitivos.
A oportunidade de criar o app deu-se por meio das disciplinas optativas que o currículo aplicado pelo Instituto Alpha Lumen oferece como robótica, programação e cinema.”Os alunos que estudam aqui são jovens com altas habilidades, ou seja, com ritmo de aprendizagem mais ágil que o normal. Eles participam de diversos projetos e competições, sempre com essa preocupação de desenvolver algo que tenha um impacto social”, conta Nuricel Aguilera, fundadora do Instituto Alpha Lumen.
No caso do HelpAlz, a ideia que o originou surgiu da experiência pessoal de uma das estudantes. “Minha bisavó tem Alzheimer, então quando estávamos conversando sobre criar um app que tivesse um impacto social, pensei na lacuna que existe nessa área. Não havia nada voltado para as famílias, só para os pacientes, mas que era falho já que eles acabam perdendo a habilidade de usar o app com o tempo”, conta Larissa.
Com a ferramenta, disponível gratuitamente para sistema Android, as estudantes estão participando do concurso Village to Raise a Child, promovido pela Universidade de Harvard, nos EUA. Dos 73 projetos participantes da primeira etapa, apenas 5 passaram para a fase seguinte, entre eles o HelpAlz. “Tivemos que fazer um vídeo apresentando o aplicativo que foi colocado em um site para votação popular. Passamos pela primeira fase em segundo lugar”, comemora Larissa.
A próxima etapa será uma série de entrevistas com membros da universidade. Os vencedores serão anunciados no dia 25 de julho e passarão uma semana em Harvard para aprimorar o dispositivo, consultar professores, entre outras atividades.


domingo, 2 de abril de 2017

“Se fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação”

ENTREVISTA – é um gênero textual publicada na forma de perguntas e respostas. O texto introdutório contém breve perfil do entrevistado, resumo do assunto abordado e informações como local, data e duração da entrevista. Identifique esses elementos na entrevista que segue.

“Se fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação”
António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, comenta a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro e aponta novos modelos de formação docente
THAIS PAIVA

Muito discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educação pública. É com essa crítica que o português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e candidato às últimas eleições presidenciais de Portugal, resume sua visão sobre o cenário educacional no Brasil.
Professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (França), Nóvoa é hoje uma das principais vozes na área pedagógica e tornou-se uma referência em formação docente ao propor modelos inovadores como uma espécie de residência médica para os professores.
Em São Paulo, onde palestrou no 12ª Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa conversou com Carta Educação sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educação pública como compromisso social e criticou os equívocos que sustentam a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro. “O melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo”, resume.
Carta Educação: O senhor cobra uma maior participação da sociedade na educação tendo, inclusive, formulado o conceito de espaço público da educação. Como vê esse cenário de sinergia no Brasil?
António Nóvoa: Nós temos um discurso muito gongórico, excessivo sobre a importância da educação, quando as condições básicas não estão sequer asseguradas. Portanto, a primeira coisa que a sociedade brasileira precisa fazer coletivamente, independentemente de partidos e políticos, é garantir essas condições básicas de funcionamento para as escolas, que incluem as condições para o exercício do trabalho dos professores. Se não fizer isso, todo o resto é conversa, coisas para ilustrar a mídia, mas que não têm nenhum impacto. Não conseguimos mudar a educação se isso não for um desígnio coletivo da sociedade. Não pode ser um problema dos professores ou dos pais ou dos pedagogos ou do partido A ou do partido B. No Brasil, vejo que há muita conversa, muito discurso, mas pouco compromisso concreto com a educação pública brasileira. Há pouca indignação e, se eu fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação pública.
CE: Essa falta de indignação não está relacionada ao fato das classes mais abastadas no Brasil matricularem seus filhos na escola privada, isto é, da educação pública ser um “problema” das classes mais pobres?
AN: Com certeza. Para quem vem de fora e olha para o Brasil, esse continua a ser o problema maior, o da desigualdade. É um raciocínio de vistas estreitas, de quem não percebe que não resolvemos nossos problemas se não resolvermos o problema dos outros. E as elites brasileiras são muito separadas do compromisso social. Fazem umas coisinhas filantrópicas para se justificarem, para fazerem de conta, mas não têm compromisso social nenhum. Enquanto não houver uma consciência coletiva de que o problema é de todos, o Brasil não avançará do ponto de vista da educação pública. Em Portugal, desde a revolução de 74, houve uma espécie de compromisso do país com a escola pública. Demorou 40 anos para isso acontecer, mas hoje estamos nos indicadores educacionais acima de países que investiram em educação quando éramos o último da Europa. Vejamos o Pisa, por exemplo, que é um indicador que eu não gosto muito, mas que serve para ilustrar. O Pisa tem dois indicadores: um do qual se fala muito que é classificação dos países, o ranking de qualidade, e outro do qual não se fala quase nada, que é o indicador de equidade, isto é, os países que possuem menos desigualdades educacionais. Portugal vai bem no ranking da classificação, mas, sobretudo, vai melhor no ranking da equidade. E é isso que torna um país melhor. Enquanto continuar cada um tratando de si, da escola dos seus filhos, dos seus problemas, o Brasil estará caminhando para um precipício.
CE: O senhor diz que o papel do professor é ajudar o aluno a transformar informação em conhecimento e que o bom profissional é aquele capaz de conseguir com que, no fim, o aluno goste daquilo que não gostava. Como formar o docente para esses papéis?
AN: Há um escritor português, Gonçalo M. Tavares, um dos mais brilhantes da nova geração, que utiliza uma metáfora muito interessante: “nós somos as imagens que temos”. O que isso quer dizer? Tudo aquilo que vemos na vida compõe o que somos. Vou explicar de outra maneira. Ontem, estava aqui em São Paulo e liguei a televisão. Mudando de canais, vi aquelas imagens, músicas, telejornais horríveis e pensei que ninguém pode se educar se sua vida é aquilo, aquele imaginário paupérrimo. Os professores precisam alargar o seu repertório cultural, terem contato com mais realidades para serem capazes de passar isso para os seus alunos. Ninguém pode gostar daquilo que não conhece. Se eu não fizer um esforço para conhecer as regras do xadrez, eu não posso gostar de xadrez. Uma pessoa que não lê muito, que para ler um texto fica quase a juntar as letras, dificilmente gostará de leitura. Enquanto as crianças tiverem as imagens diárias que têm será muito difícil subir o nível da educação. E isso é verdade para professores e para crianças. Só se pode gostar depois de se conhecer muito. As crianças fazem isso com os jogos de informática: treinam muito até ganharem proficiência e, a partir desse momento, começam a ter prazer. É preciso fazer a mesma coisa com leitura, matemática, história e biologia. E esse é o trabalho do professor. Agora, para que o professor faça esse trabalho, ele próprio precisa alargar o seu repertório de imagens.
CE: Esse parece ser um caminho individual de aperfeiçoamento. Mas no campo da qualificação formal, o que as universidades poderiam fazer? O senhor já propôs um esquema semelhante à residência médica para que os docentes aprendessem a ensinar com outros mais experientes.
AN: Primeiramente, é preciso ter um lugar para formar os professores nas universidades de forma unificada. Estou a dar apoio ao reitor da UFRJ, no Rio de Janeiro, para tentar construir uma coisa que ele designa de “complexo de formação de professores”, um lugar onde o professor terá sua formação completa. Sobre o esquema de residência, na formação médica na Universidade de Harvard, por exemplo, nos primeiros dias do curso, há uma cerimônia na qual os médicos dos hospitais trazem jalecos e vestem os jovens estudantes de medicina. Quando fazem isso estão a dizer “a tua formação agora é de nossa responsabilidade, nós agora vamos te conduzir pelos caminhos da profissão”. E isso vai ajudando a criar uma rotina, um saber profissional que não é apenas da prática, é um conhecimento que vai sendo construído na relação entre profissionais mais experientes e jovens estudantes. É isso que é preciso na formação do professor, que os jovens das licenciaturas tenham contato com os professores mais antigos, mais experientes, com professores das faculdades, das universidades. O ideal seria que quando acabassem a licenciatura fossem para as escolas acompanhados, em uma espécie de residência docente para que, progressivamente, fossem adquirindo a autonomia profissional.
CE: Qual sua opinião sobre a reforma curricular que foi feita no Ensino Médio no Brasil que inclui o agrupamento por áreas do conhecimento, maior foco no ensino técnico, permissão para que pessoas com “notório saber” possam dar aulas, entre outros pontos?
AN: O mundo inteiro é um cemitério de reformas; reformas curriculares então nem se fala. É muito fácil fazê-las, o mais difícil é aquilo que falamos no princípio: dar as coisas básicas e simples, as condições de funcionamento para escolas, professores. Isso dito, o Ensino Médio foi um problema no mundo todo 20 anos atrás, período em que os países passaram a educação obrigatória para o final da etapa. Nesse sentido, o Brasil está bastante defasado. No que diz respeito à diminuição do currículo, sou sensível ao argumento. Acho que as escolas têm muitas coisas para ensinar. Desde o século XIX, ninguém tirou nada da escola, só meteu mais conteúdo. Sou também sensível a um segundo ponto que está na retórica da reforma que é a ideia dos percursos formativos. São argumentos importantes no sentido de tornar mais coerente o currículo e, por outro lado, permitir uma certa diferenciação da trajetória de cada. O problema dessas duas retóricas é que elas conduzem para três coisas que não estou de acordo e que, para mim, são as coisas que estão a acontecer no Brasil.
CE: Quais são elas?
AN: A primeira coisa é que quando se fala em diminuição do currículo não pode ser sinônimo da velha ideologia do back to basics, isto é, de voltar aos fundamentos, dar só matemática e português. Tornar os currículos mais simples trata-se de conseguir que, em cada uma das matérias, se valorize a dimensão das linguagens e não a dimensão dos conteúdos. Isto é, que nós tenhamos os instrumentos para ascender ao conhecimento. Os conteúdos estão todos disponíveis na internet, em todo lado, logo, o que é preciso adquirir é a linguagem matemática, científica, da escrita, artística, corporal. Ora, o que está a acontecer no Brasil agora é o back to basics. Há um livro agora muito famoso no Brasil chamado Sapiens, do israelense Yuval Harari, no qual ele diz que hoje temos máquinas de aprendizagem que podem fazer coisas muito mais inteligentes que os humanos. Então, pela primeira vez na história, a inteligência não está só do lado dos humanos. Logo, qual é a última fronteira da humanidade? É a consciência, algo que não pode ser substituído por nenhuma máquina. E a dimensão da consciência precisa estar presente no currículo, por isso, não podemos esquecer da história, da sociologia, da filosofia, tudo que nos dá essa outra dimensão. Minha segunda crítica é a ideia da formação profissional. Há 20 anos também se falava muito sobre isso e deixou-se de falar por várias razões, mas há algumas óbvias. A expectativa de vida das pessoas está a aumentar exponencialmente. Hoje, estamos a aprender a conviver com quatro gerações ocupando o mesmo espaço – bisavós, avós, pais e filhos. Isso tem de significante que a entrada na vida adulta vai ser cada vez mais tardia. Há um século, a expectativa média de vida era 40 anos, logo, a entrada na vida do trabalho tinha que ser aos 14, 15. Hoje, a média é 80 anos, então a entrada na vida adulta se faz mais tarde, inevitavelmente. Portanto, falar de uma formação técnica ou tentar que, hoje, uma pessoa com 14 anos tenha uma relação com o mundo do trabalho não faz nenhum sentido. Não é essa a evolução da sociedade: nós queremos pessoas que saibam pensar. Que saibam trabalhar também, com certeza, mas não é aquela visão que tínhamos antigamente da formação técnica, do operário. Nos próximos 20 anos, cerca de 30%, 40% dos trabalhos vão ser feitos pela tecnologia. Portanto, manter hoje essa formação técnica é uma ideia de discriminação social sobre os pobres. Os percursos formativos, na prática, mantêm a tradição de que os pobres servem para ser operários e os ricos, doutores. É o que chamamos de novo vocacionalismo. Agora o melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário, é a pior escola do mundo.
CE: E qual sua opinião sobre a adoção do “notório saber“?
AN: O programa Teachers For America, do George Bush, que recrutava pessoas de notório saber para serem professores foi um desastre porque, obviamente, ser professor não é ter notório saber em uma matéria, é muito mais complexo que isso. Tem uma dimensão social, pedagógica, cultural muito mais ampla. Aliás, há um equívoco enorme que é o de achar que a missão de um professor de matemática é ensinar matemática. Não é. A missão de um professor de matemática é formar uma criança através da matemática, o que é completamente diferente. Porque não se pode ser cidadão sem saber matemática. A cidadania implica saber matemática, português, história. Ora, não é por termos notório saber em química que seremos bons professores dessa disciplina. Isso é acabar com a alma, com a identidade da profissão.
CE: O senhor foi candidato independente às eleições presidenciais de Portugal de 2016. Como foi a experiência?
AN: Foi uma experiência extraordinária porque eu não tinha vida política, nunca pertenci a nenhum partido, mas sempre estive envolvido em causas sociais. Militei quando era estudante contra a ditadura e sempre estive do lado da liberdade de pensamento, de crítica, de discordar dos outros. Por volta de 2013, Portugal vivia um momento horrível, com políticas de austeridade absurdas e um neoliberalismo cego que colocaram o país em uma situação dramática. A essa altura, era preciso dar um murro na mesa, dizer um basta. Como participei de grandes manifestações contra a austeridade e tinha acabado de ser reitor da universidade, isso me deu uma grande visibilidade. Como dizia Martin Luther King sobre o caráter das pessoas não se mostrar nos tempos fáceis, mas nos tempos difíceis, entendi que precisava tomar uma posição. E concorrer foi uma experiência extraordinária pela mobilização que trouxe das pessoas e pelo resultado. Estive a 1% ou 2% de passar ao segundo turno e se passasse acho que ganhava. Foi a primeira vez que um candidato independente teve uma candidatura com envergadura e isso para a política de Portugal foi muito positivo e trouxe uma renovação. O que está a acontecer em Portugal agora é boa parte do que defendi em minha candidatura.
CE: O senhor cogitaria concorrer mais uma vez?
AN: Se o país continuar tal como está, não tenho nenhuma vontade porque acho que está muito bom. Nesse momento, apoio o trabalho do atual presidente da república [Marcelo Rebelo de Sousa]. Mas se o país entrar em uma situação difícil novamente, voltamos ao Martin Luther King e eu, como um homem de caráter, preciso me apresentar. Os portugueses sabem que podem contar comigo que eu estarei lá de novo.

  Professora lista 5 dicas para não se perder na hora de estudar atualidades Querer estudar cada desdobramento de cada grande acontecimento ...